Um paciente de 31 anos, com síndrome de Down, que estava internado em estado grave no Hospital de Três Passos, faleceu nesta terça-feira (21) após mais de um mês aguardando uma transferência hospitalar pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo familiares, ele esperava desde o dia 13 de junho pela autorização para ser encaminhado a uma unidade com estrutura adequada ao seu tratamento.
De acordo com a família, o pedido de transferência estava sob responsabilidade do GERINT (Gerenciamento de Internações), órgão responsável pela regulação de leitos e pelas transferências hospitalares entre unidades do SUS no Rio Grande do Sul. Conforme os familiares, o processo retornou diversas vezes ao hospital solicitante com pedidos de complementação de informações, o que acabou prolongando a espera pela transferência.
Na tentativa de buscar atendimento especializado, a família conseguiu, por meio do GERCON (Gerenciamento de Consultas), uma consulta em Passo Fundo. Como o GERCON regula apenas consultas e exames especializados, o paciente foi transportado de ambulância até o município e posteriormente retornou para Três Passos, em um deslocamento que totalizou aproximadamente oito horas de viagem.
Ao chegar em Passo Fundo, a equipe médica constatou que o quadro clínico do paciente não era ambulatorial, mas sim de internação hospitalar. Conforme relataram os familiares, os médicos informaram que o caso deveria ter sido regulado pelo GERINT, responsável pelas transferências entre hospitais, e não pelo GERCON, destinado exclusivamente ao agendamento de consultas e exames.
Sem a internação ou a transferência necessária naquele momento, o paciente retornou ao Hospital de Três Passos. Durante o deslocamento entre as duas cidades, ele sofreu uma broncoaspiração, teve agravamento do quadro clínico e precisou ser internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Passo Fundo era referência para o tratamento
Segundo os familiares, o paciente necessitava com urgência de uma ressonância magnética em equipamento compatível com sua condição cardíaca. Ele possuía uma cardiopatia e utilizava uma válvula cardíaca, o que impedia a realização do exame em aparelhos convencionais.
Ainda conforme a família, o Hospital São Vicente de Paulo, em Passo Fundo, era a unidade de referência indicada pelo GERINT, por reunir as condições necessárias para o atendimento. Além da possibilidade de internação em um hospital de maior complexidade, a instituição possui o equipamento de ressonância magnética compatível com a condição clínica do paciente, considerado essencial para a continuidade da investigação e definição da conduta médica.
Transferência ocorreu pela rede privada
Segundo a família, diante da demora na regulação pelo SUS, o paciente acabou sendo transferido por meio da rede privada de Três Passos para Santo Ângelo. No entanto, apesar da remoção, ele não resistiu e faleceu nesta terça-feira (21).
A família afirma que aguardou a autorização da transferência por mais de um mês e agora cobra esclarecimentos sobre a condução do processo de regulação e encaminhamento do paciente.
Secretaria da Saúde afirma que não houve negativa de assistência
Antes da confirmação do óbito, a reportagem do Passo Fundo Notícias encaminhou questionamentos à Secretaria de Comunicação do Estado e à Secretaria Estadual da Saúde sobre os motivos das devoluções do processo e da demora na autorização da transferência.
Em nota oficial, a Secretaria da Saúde informou que não houve negativa de assistência ao paciente. Segundo o Estado, o caso foi regulado e acompanhado pela Central de Regulação com prioridade compatível com a gravidade do quadro clínico, permanecendo o paciente assistido em leito de UTI no Hospital de Três Passos durante todo o período.
Sobre as sucessivas devoluções do pedido de transferência pelo GERINT, a Secretaria explicou que as solicitações de complementação de informações fazem parte do protocolo técnico da regulação e não representam uma negativa de transferência. Conforme o órgão, as informações clínicas inicialmente encaminhadas pelo hospital solicitante foram consideradas insuficientes para uma avaliação regulatória adequada, pois não continham exame físico e neurológico detalhados, considerados essenciais diante da gravidade do quadro.
Por esse motivo, segundo a Secretaria, a Central de Regulação devolveu o processo para complementação das informações clínicas antes da continuidade da análise. O Estado afirma que esse procedimento integra a rotina da regulação e tem como objetivo evitar encaminhamentos inadequados, garantindo que o paciente seja direcionado ao serviço mais compatível com suas necessidades assistenciais.
A reportagem segue acompanhando o caso. O espaço permanece aberto para manifestações da família, da Secretaria Estadual da Saúde, do Hospital de Três Passos e dos demais órgãos envolvidos.

















